quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Ceremony - New Order / Joy Division

Os Jardins de Versailles - Arredores de Paris

Falando da minha experiência pessoal, a primeira vez que ouvi esta música foi no filme Marie Antoinette, de Soffia Coppolla. O impacto que a canção teve em mim terá sido ainda maior por isso, por toda a envolvência, por tudo o que estava a viver naquela altura. O filme, que vi no cinema Monumental, no Saldanha, marcou-me de uma forma indelével.

Em geral incompreendida pelos críticos, aquilo que Soffia Coppolla pretendeu fazer foi não apenas contar a história de uma das figuras mais controversas da história de França mas sim a de uma adolescente que tinha sido obrigada a crescer depressa demais, a deixar a sua família para entrar numa outra que não conhecia.

Em suma, o filme quis retratar uma estória intemporal, a de uma rapariga que queria apenas ter a idade que tinha, fazer descobertas, desvendar um mundo de prazeres vãos, de paixões, de deleites fúteis, de inocência, de Amor.





A banda sonora do filme é contemporânea (principalmente de anos 80), conferindo ainda mais um tom de intemporalidade a cada momento.

Ceremony, em particular, passa quando Marie Antoinette está a comemorar o seu aniversário com amigos, jogando dados, rindo, comendo, bebendo, e esperando pela madrugada para poder contemplar o emergir do Sol reflectido na sumptuosa fonte de Versailles, por entre os seus jardins sem fim. A cena é inesquecível, e a música só lhe atribui um cariz ainda mais eterno, a de que aquele momento é uma altura da nossa vida em que julgamos que tudo é possível, que a felicidade não pode ter limites.

Os próprios versos finais de Ceremony, para mim os melhores, são profundamente simbólicos de toda uma esperança, de um optimismo quase infinito.

Avenues all lined with trees.

Picture me and then you’ll start watching…

Forever… Watching love grow.

Forever… Letting me know.

Ian Curtis não terá certamente pensado em Versailles quando escrevia a música Ceremony. Mas o significado que lhe quis dar é esse mesmo: o de uma incontida esperança. Por entre todos os demónios e perturbações que o atormentavam, e que eventualmente culminariam no seu suicídio, Ceremony é uma luz que emerge no meio da dor e do sofrimento.

Depois de ter escrito Love will tear us Apart, em que falava da força esmagadora da rotina e de como esta era capaz de secar tudo à sua volta, Ceremony é o testemunho de que, por momentos, Curtis acreditou que o Amor podia crescer para sempre, sem barreiras, sem o espectro da rotina ou da realidade. Sempre que ouço esta música acredito nisso também…

Abaixo podem ver a letra da música e dois vídeos: o de Ceremony no filme Marie Antoinette e uma actuação de 2002 dos New Order. Podem também ver um pouco da história da música.

This is why events unnerve me,
They find it all, a different story,
Notice whom for wheels are turning,
Turn again and turn towards this time,
All she ask's the strength to hold me,
Then again the same old story,
World will travel, oh so quickly,
Travel first and lean towards this time.

Oh, I'll break them down, no mercy shown,
Heaven knows, it's got to be this time,
Watching her, these things she said,
The times she cried,
Too frail to wake this time.

Oh I'll break them down, no mercy shown
Heaven knows, it's got to be this time,
Avenues all lined with trees,
Picture me and then you start watching,
Watching forever, forever,
Watching love grow, forever,
Letting me know, forever.








Esta fabulosa canção possui um simbolismo enorme já que se pensa ter sido uma das últimas senão a última música composta por Ian Curtis, o lendário líder e vocalista de uma das bandas mais influentes do final dos anos 70/princípio de 80, os ingleses Joy Division.

Apesar de ter sido composta ainda por Ian Curtis, a música só viria a ser efectivamente gravada após o seu suicídio, em Maio de 1980. Ceremony foi o primeiro single a ser lançado, em 1981, pelos New Order, a banda nascida das cinzas dos Joy Division imediatamente a seguir à morte de Curtis.

Os Joy Division chegaram a tocar a música ao vivo, num concerto que foi inclusivamente gravado. Infelizmente, durante Ceremony, o técnico de som cometeu um erro garrafal e gravou quase só a parte instrumental da música, colocando a voz de Curtis num nível demasiado baixo. A voz é apenas audível (e com uma qualidade deficiente) a espaços e já no final da canção. Esta versão foi incluída no álbum duplo ‘Still”, lançado a título póstumo pelos Joy Division.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

24 de Agosto - Garota de Ipanema

Heloísa Pinheiro - A Garota de Ipanema

A primeira música a ser retratada neste blogue é porventura a mais simbólica e mais conhecida do género musical que ficou conhecido como bossa-nova.

Conta a lenda que, no início dos anos 60, pouco tempo depois do despontar da Bossa-Nova com o álbum Chega de Saudade de João Gilberto, António Carlos Jobim e Vinicius de Moraes tinham o hábito de se juntar no Bar Veloso (hoje "Garota de Ipanema"), situado a apenas alguns metros das praias do Rio de Janeiro.

Por entre toda a boémia, feita de cervejas (ou chôpes) e devaneios sobre cultura, mulheres e o Amor, havia todos os dias um momento de reverência entre aqueles que se viriam a tornar dois dos maiores monstros da Bossa-Nova. Todas as manhãs, Heloísa Pinheiro, uma carioca na altura com apenas 17 anos, passava em frente ao bar a caminho da praia.

Foi a partir deste ritual quotidiano que começou a emergir a inspiração para uma canção. Reza a história que Tom Jobim perguntou a Vinicius:

- Não é a coisa mais linda Vinicius?

Ao que Vinicius respondeu:

- É a coisa mais cheia de graça que eu já vi.

A letra da canção começava a tomar forma e a música surgiu naturalmente. Helô Pinheiro, como era conhecida, ficou assim imortalizada para sempre numa canção que seria interpretada ao longo dos anos por um incontável número de artistas, entre os quais se destacam Frank Sinatra.

A versão mais conhecida de "Garota de Ipanema" é no entanto, aquela interpretada por João Gilberto e a sua mulher na altura, Astrud, no lendário álbum gravado por António Jobim e Stan Getz, intitulado precisamente "Getz/Gilberto featuring Tom Jobim", em 1962.

A lenda diz ainda que Tom Jobim não ficou particularmente agradado com a primeira tradução da música (que viria a ser a mais usada por artistas internacionais). Tom achava que que os versos "Tall and tanned and young and lovely" se referiam a um estéreotipo de beleza que ia contra o ideal em que ele acreditava, que preconizava que todos podiam ser admirados, independentemente da sua cor, idade, fisionomia ou afins.

A versão do álbum da Verve é a mais conhecida, mas a mais lendária foi aquela apresentada pela primeira vez ao vivo por Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto na histórica sala de espectáculos carioca "O Bom Gourmet". Em 1962, acompanhados pela banda "Os Cariocas", os três expoentes máximos da Bossa-Nova criaram um momento único e irrepetível da cena musical brasileira (e, porque não, mundial) ao fazerem uma pequena introdução para a música.

João: Tom, e se você fizesse agora uma canção, que possa nos dizer, contar o que é o amor?

Tom: Olha Joãozinho, eu não saberia sem Vinicius pra fazer a poesia.

Vinicius: Para essa canção se realizar, quem dera o João para cantar.

João: Ah, mas quem sou eu, eu sou mais vocês, melhor se nós cantassesmos os três.

Infelizmente, não chegou até nós o vídeo dessa histórica actuação mas a gravação aúdio foi preservada e podem vê-la abaixo.






Ainda hoje, a Garota é uma das três músicas mais tocadas de sempre pelas rádios, juntamente com Yesterday, dos Beatles e Helô Pinheiro, a "Garota de Ipanema" original, ainda hoje vive na sombra da "sua canção", possuindo uma linha de moda com o nome Garota de Ipanema.

Abaixo a letra da canção e outra intepretação histórica, por João Gilberto e Tom Jobim, recriando a versão original, mas já sem o seu amigo de sempre, Vinicius.





Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Num doce balanço, a caminho do mar

Moça do corpo dourado
Do sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar

Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
E também passa sozinha

Ah, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo
Por causa do amor